Quando eu entrei em 1991 no curso de Bacharelado em Comunicação Social – Jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco, eu tinha muitos sonhos: ser correspondente internacional, repórter da área de jornalismo científico e até crítica cinematográfica. E, meninos, eu tentei. Mas, nunca, nunca, imaginei que minha jornada me levaria para a comunicação corporativa. E o pontapé inicial para isso foi a obrigatoriedade de cumprir créditos necessários com uma disciplina do tronco específico de comunicação, que me fez estudar jornalismo empresarial, que teve o livro homônimo como leitura fundamental.
Publicado em 1987 pela Summus Editorial, Jornalismo Empresarial: Teoria e Prática consolidou-se como a obra pioneira no Brasil dedicada a sistematizar o jornalismo aplicado às empresas. Assinado por Francisco Gaudêncio Torquato do Rego, o livro nasce em um momento estratégico de profissionalização da comunicação organizacional e permanece atual ao dialogar com os desafios contemporâneos das marcas, instituições e organizações.
Voltado a estudantes de comunicação, jornalistas e profissionais de assessoria de imprensa, o livro apresenta uma leitura clara e didática sobre o que diferencia publicações empresariais jornalísticas de ações meramente promocionais ou internas. Torquato fundamenta essa distinção a partir de critérios clássicos do jornalismo — como atualidade, periodicidade, universalidade e difusão — adaptados ao contexto corporativo brasileiro.
A obra destaca o papel do jornalismo empresarial como instrumento público, capaz de registrar o “presente que constrói a história”, priorizando conteúdos interpretativos e de interesse permanente. Reportagens em profundidade, análises e textos opinativos ganham protagonismo frente ao informativo puro, ampliando o valor editorial das publicações institucionais.
No campo histórico, o autor reconstrói a trajetória das revistas e jornais de empresa desde as décadas de 1920 e 1930, conectando esse movimento à criação da ABERJE, em 1967, marco decisivo para a profissionalização da área no Brasil. A partir dessa base, Torquato propõe modelos de planejamento editorial e execução de projetos jornalísticos alinhados à estratégia organizacional, sem abrir mão da autonomia ética do jornalismo.
Com 192 páginas, bibliografia robusta e gráficos explicativos, Jornalismo Empresarial: Teoria e Prática segue como leitura essencial para quem deseja compreender — e praticar — uma comunicação empresarial sólida, estratégica e comprometida com a informação de qualidade. Um clássico que ajuda a pensar o presente e, sobretudo, a projetar o futuro da comunicação nas cidades, nas empresas e na sociedade.
Depois dessa leitura fundamental e dos estudos obrigatórios sobre essa atividade profissional, seguiu-se uma interessante jornada que me levou ao primeiro job como Assessora de Imprensa da boate New Hits(1992), Instituto Ricardo Brennand, Fábrica Alimentícia Vitarella, Eros Hotel e Lemon Motel, MCI Estratégica, Ampla Comunicação, Seu Fulano Bar, Prefeitura de Moreno, além de Assessora de Comunicação da SNCT para a SBPC-PE e muito mais. Hoje, minha visão vai mais além, contudo, graças ao pontapé inicial do Jornalismo Empresarial.
Para complementar esse percurso histórico e pessoal, vale olhar para onde a comunicação corporativa chegou em 2026 — e o cenário é claro: o jornalista e o profissional de Relações Públicas deixaram de ocupar um lugar operacional para se tornarem atores centrais da estratégia de negócios. A grande virada está na consolidação da Inteligência Artificial como copiloto, e não substituta: mais da metade dos profissionais já usa IA para pautas e análise de audiência, mas o diferencial competitivo segue sendo a curadoria humana, capaz de garantir ética, profundidade e coerência de marca.
Ao mesmo tempo, o conteúdo se fragmenta em formatos multimodais — podcasts, vídeos curtos, newsletters — enquanto o tráfego orgânico tradicional perde força, exigindo que marcas construam suas próprias comunidades. Nesse ambiente hiperpersonalizado, ganham valor competências como data-driven storytelling, gestão de crises e reputação, e parcerias com criadores de conteúdo de nicho.
O desafio é grande: pesquisas recentes mostram que apenas 31% dos comunicadores têm clareza da estratégia global das empresas, falhas internas já impactam produtividade e bem-estar, e o press release massivo se mostra cada vez mais obsoleto. Em contrapartida, o mercado remunera melhor quem entrega visão estratégica, especialização técnica e capacidade de liderança comunicadora.
Então, em 2026, comunicar não é apenas informar — é humanizar, educar e sustentar a reputação em um ecossistema cada vez mais complexo e conectado.



